segunda-feira, novembro 21, 2005

Editorial - O "PAI" DO ELEITORALISTO E "MÃE" DO MONSTRO

Não gostamos de pessoas que dizem ser o que não são. Não gostamos de quem se faz passar por estar acima da mentira, do jogo, da falácia e da demagogia, guindar-se em bicos de pé ao pedestal de salvador da Pátria. No fundo, só para caçar votos.

Em Roma os candidatos vestiam túnicas brancas para mostrar quanto era alva o que lhes ia na alma. Eram cândidos.

Hoje, a túnica romana é dizer que se é técnico. Um técnico que só quer o bem de Portugal. Um técnico de quê?

Cavaco Silva sempre disse que era um técnico e que não gostava da política.

Disse-o quando Sá Carneiro o convidou para ministro das Finanças nos finais dos anos 70. E Cavaco aprovou os programas eleitoralistas de Sá Carneiro que levaram ao desequilíbrio orçamental. Foi um político assustado que se recusou a ir as negociações com o FMI e deixou sozinha a directora do Banco de Portugal, Teodora Cardoso.

Quanto isso aconteceu fugiu para a sua vida privada. Mentira: andou a sabotar o Governo de Pinto Balsemão, a tentar chegar à liderança do partido. E conseguiu-o no famoso congresso da Figueira da Foz de Maio de 1985. Para o povo disse que foi lá por acaso, para fazer rodagem do automóvel. Porque ele era um técnico, pouco preocupado com a política.

Disse-o quando foi candidato a primeiro-ministro nesse mesmo de 1985, nas eleições legislativas provocadas porque rompeu com o Governo PS/PSD. Aliás, mesmo a tempo de beneficiar da política de austeridade levada a cabo por esse Governo. E, durante dez anos, quase tantos de maioria absoluta, desbaratou como qualquer político uma era de ouro como Portugal nunca teve. Os dinheiros da Europa entravam em golfadas e, apesar disso, vendeu a agricultura portuguesa, descapitalizou a Segurança Social, não reformou a Função Pública e acabou a gerir o ciclo político eleitoral em vez de fazer reformas de fundo. Nada fez e deixou a corrupção gangrenar o PSD, a ponto de não a controlar. Fugiu, deixando Fernando Nogueira sozinho. Foi o tabu. Um pesado silêncio sobre o que se passava no país e no partido.

Quando isso aconteceu voltou para a sua vida privada. Isso queria ele, mas o partido obrigou-o a ser candidato a presidente da República. “Quiseste ser político, agora serás humilhado”. E ele foi. Perdeu em Janeiro de 1996 contra Jorge Sampaio. E voltou à sua vida privada. Durante muitos anos.
Passaram dez anos em que voltou a dizer, amiúde, que era apenas técnico. Programou o seu regresso ao milímetro. Escreveu as memórias antes do tempo da velhice. O seu ex-assessor de imprensa Fernando Lima escreveu outro livro. E publicou alguns artigos, sempre dizendo que o autor era um técnico.

E di-lo agora. Mais uma vez, como candidato a presidente da República. Um técnico que tem estado muito presente nas lides políticas. Até quando?

Cavaco Silva é conhecido de todos nós. Será que nos esquecemos já? AMNESTESIA©ANIBAL vai lembrar-lhe alguns episódios. E colocar algumas perguntas ao candidato.



Um famoso almoço

(Autobiografia Política, volume 1, pag50)


PERGUNTA: PORQUE NÃO CONTA CAVACO SILVA O QUE FOI DECIDIDO NESSE ALMOÇO?

Sá Carneiro queria tomar medidas populares. Medidas eleitoralistas. E foram tomadas? O que fez o ministro das Finanças de Sá Carneiro? Demitiu-se? Não. Mas passados vinte anos vem deixar a lama aos pés de Sá Carneiro. Mas ele quer passar incólume. Incólume de quê?

Leia-se o artigo do economista José Silva Lopes sobre essa altura económica:

“A economia portuguesa foi assim atingida por um golpe duplo: por um lado, a subida dos preços do petróleo; por outro lado, a queda da procura das exportações (...). O equilíbrio da balança de pagamentos foi seriamente afectado (...) Face a estas condições a orientação da política económica foi oposta à que se seria de esperar”


Eleições à porta

(A Economia Portuguesa depois do 25 de Abril: 1974/1990)



E como foi que se ganhou essas eleições? Que medidas foram tomadas?


As medidas eleitoralistas

(A Economia Portuguesa depois do 25 de Abril: 1974/1990)


Silva Lopes ainda: “Os défices da balança de transacções correntes saltaram para níveis catastróficos (...) Por causa dos défices, assistiu-se a uma explosão da dívida externa (...). No fim de 1982, a banca internacional perante a crescente procura de novos empréstimos, estava a mostrar-se muito renitente em relação a Portugal. Foi por isso necessário voltar a efectuar vendas de ouro”. Mas não foi suficiente e, na ausência, de um programa de austeridade, o FMI veio em 1984. Cavaco Silva estava no Banco de Portugal, à frente do Departamento de Estatísticas e Estudos Económicos. Devia ter ido às reuniões. Não foi. Deixou a directora Teodora Cardoso sozinha.

PERGUNTA: PORQUE NAO FOI CAVACO SILVA AS REUNIOES COM O FMI E DEIXOU TEODORA CARDOSO SOZINHA?

Passados mais uns anos, no início da década de 90, aí está de novo Cavaco já primeiro-ministro. De novo à beira de eleições de 1991. Tinha uma maioria absoluta desde 1987 e não a queria perder. O que fez ele? Deu mais dinheiro à Função Pública, sempre eram umas centenas de milhares de pessoas, mais famílias:


O pai do "monstro"

(Publico, 21 Nov 2005)


Cavaco Silva parece sacudir a água do capote das Finanças Públicas. Não se atrevam a questionar a sabedoria do professor. Mas nesse caso, senhor professor...

PERGUNTA: PORQUE, PRECISAMENTE NESSA ALTURA, DECIDIU MIGUEL BELEZA ABANDONAR O MINISTÉRIO DAS FINANÇAS DESSE GOVERNO DE CAVACO SILVA?

Quem responde?


4 Comments:

Anonymous luís barbosa said...

não faço nenhum comentário!
dou-lhe os parabens pelo blog e por desmascarar o canalha que está a ser levado ao colo par balém!
FORÇA!!!!!

terça-feira, novembro 29, 2005 6:59:00 da tarde  
Blogger Grand Vizir said...

Muitíssimo oportuno.
Lá nas arábias, para os lobos com pele de cordeiro; temos tido uma política de grande compreensão:
Tosquia e pau!

quinta-feira, dezembro 01, 2005 9:39:00 da manhã  
Anonymous João L. Silva said...

também os meus parabés

sábado, dezembro 10, 2005 4:34:00 da tarde  
Blogger Sílvia said...

O senhor parece-me bem documentado. Mas porque é que ninguém fala nisto?

quinta-feira, dezembro 15, 2005 12:38:00 da manhã  

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